OBRIGADO POR SUA HISTÓRIA

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Maestro Budega e o turismo artístico-musical de Cabo Frio.

No hotel La Brise, Budega, ao lado da produtora Luciana Branco  e os musicos 
Lucas, David e Jesse, para a segunda edição do evento, "O Choro Comeu".
Que Cabo Frio é a cidade do Turismo, disso não se tem dúvida, embora, aqui, a vida cultural seja intensa e a cidade respire algo que vai muito além das belas praias. Cabo Frio é, para quem tiver olhares e ouvidos atentos, um caldeirão cultural, por onde pulsa a vida e a energia de muitos artistas locais. Que seja através de música nas praças, onde acontecem eventos que vão do Gospel ao Jongo, do Samba ao Choro, das Batalhas de Rima às Festas de Reis.
Quando um turista chega na cidade, ele curte a praia e se diverte vendo um céu azul, belos barquinhos entrando mar adentro, transatlânticos que circulam pra lá e pra cá; porém, quando chega a noite, este mesmo turista, se tiver tino aguçado e gostar de arte, vai entrar no mundo da música cabofriense, e é aí que entra o Maestro Budega. muitos de seus discípulos podem estar tocando pela noite. Sim, porque Budega, através de seu projeto "Apanhei-te Cavaquinho", não só tirou jovens das ruas, ajudou a incluir pessoas, conferindo-lhes cidadania para lidar com as intempéries do dia-a-dia, mas também, forneceu uma rica energia para que esses mesmos jovens, pavimentassem a vida cultural noturna da cidade.
Ao lado de Abel Silva, no Iate Clube. Papos e mais papos
sobre música brasileira e muitas composições!
São discípulos e parceiros, que circulam pela vida louca de uma das cidades mais badaladas do Brasil, em que pese, sua população pacata e a tranquilidade cotidiana, na verdade, existe um verdadeiro veio, um profundo manancial de arte, onde a música é o carro chefe e, se tem música, sempre tem um dedinho do MAESTRO BUDEGA.
Mais do que artista, Budega é desses profissionais que contribui para pensar a música, de um ponto de vista que procura, acima de tudo, estabelecer conceitos, sem pedantismos. Ao mesmo tempo que prima por um repertório que inclui o melhor da cultura musical brasileira. Ele se propõe a levar aos jovens uma reflexão aprofundada sobre a relação tocar, cantar e se apresentar, afirmando, assim, uma identidade que vai do local ao universal.
Quando comecei a fazer perguntas sobre sua tragetória artística, Budega sempre faz questão de deixar claro que o que faz é uma missão e que ele nunca teve dúvida disso. Se hoje a cidade desfruta de uma elenco de jovens que tocam na noite, e se alastram pelo mundo todo em bandas que vão do Jazz, ao
No Iate Clube, uma parceria com seu
irmão, Alvinho - 2017.
erudito e ao popular, só fez isso porque estava imbuído de orientar as novas gerações em direção ao que ele acha importante e relevante como discussão, reflexão e execução musical. "Nunca fiz nada, pensando no meu ego. Acho que o PROJETO, deu e dá sua contribuição para o mundo da música, por isso, a partir de 2016, comecei a me empenhar na busca de uma sede para continuar levando isso adiante, de um outro patamar".
Com esta fala benfazeja, Budega conclama o empresariado da cidade a investir mais na vida turístico-cultural da cidade, sem dúvida, uma vocação que vai bem além das praias.
O projeto Apanhei-te Cavaquinho, ao longo de seus quase 20 anos de existência, começa a alçar vôos a partir de um profundo comprometimento com a música brasileira.


Veja o curta "BUDEGA" feito pelo projeto Cinema Possível - Lançado em 2016
no cine clube Cine Mosquito.



Jiddu Saldanha - Blogueiro 
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quarta-feira, 26 de abril de 2017

O mundo mítico de Gilgamesh - A Caminho de Forteleza, Ceará!

A história de Gilgamesh traz informações preciosas sobre o mundo antigo. A forma como o Deus Sol, era adorado e a relação entre as catástrofes naturais, com o fim do mundo. Um sentimento de impermanência, somado a um desejo de eternidade, algo que está nas civilizações, desde que o mundo é mundo, pautando o caminhar humano sobre as grandes planícies da existências.
Contei esta história algumas vezes, e venho, até hoje, buscando um caminho narrativo, espontâneo, que faça sua oralidade fluir, junto com a expressão da mímica natural do meu corpo. Tem sido, assim, um caminho dificílimo num momento em que memória e poesia, cada vez mais, se confundem em minha mente.
Não é nada fácil encontrar essa essência narrativa, tentando uma expressão que, longe de ser virtuosa, encontre apenas o coração e a pulsação do público em cada nuance, escultura visual-corpo-vocal, desta tão profunda, bela e misteriosa história da humanidade. Andar pelas antigas planícies da suméria e acordar em Cabo Frio, contemplar o mar, suas belezas, contemplar a vida, viver a relação de paz, amor, esperança e gratidão, diante de tantas dúvidas que me assaltam a cada momento.
Em Fortaleza, uma esperança nova, uma cortina que se abre, para mostrar minha experiências com esta história. Junho chegando, e a possibilidade de novas descobertas sobre o ato de "narrar de memória", utilizando o conhecimento da mimica enquanto elemento que sustenta alguns traços da oralidade proposta neste texto. Venha a luz deste momento, venha a glória de aprender sempre e cada vez mais, diante de uma platéia.

Os muros que separam nossa humanidade, construídos para depois serem
demolidos por ossa humanidade que busca a evolução. Foto: Alexandra Arakawa,
10º Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, 2011, durante
a narrativa mítica de Gilgamesh, o Rei Semi-Deus...
A primeira vez que contei esta história, foi em 2010, no "Conto 7 em ponto", em Belo Horizonte. No ano seguinte, 2011, fui para o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, no Rio de Janeiro e depois disso, saí por aí, contando essa história em diversos eventos, praças e escolas. Dei uma parada, para mergulhar, sentir, aprofundar, entender. AGORA ESTOU DE VOLTA.
Gilgamesh a uma das histórias que mais se aproximam do meu jeito de viver, contar e narrar!

vou membora pra uruk
a terra de gilgamesh
lá contarei histórias
lá rezarei minhas preces

terei um amigo rei
que vai me apertar a mão
serei amado e respeitado
naquela imensidão

vou membora pra uruk
subir em árvores de cedro
cavalgar o leão alado
por sobre os muros de pedra

em uruk serei feliz
terei amigos de montão
vou apertar meu abraço
com gente do coração

lá, não serei mais um
serei poeta, serei flor
em uruk, viverei
somente do meu amor.

(jiddu)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Estranho e apaixonante mundo da cachorra Laika!

Hoje acordei triste com uma notícia, de que tramita no congresso nacional, uma lei que vai liberar a caça de animais silvestres. Esse tipo de abordagem está proibido, no Brasil, desde 1967. Caçar animais silvestres é  algo bem trágico, ao legalizarem a caça, estarão legalizando a barbárie. 
Inspirado nesse episódio trágico, lembrei que reescrevi de memória e ação, a história da Cachorra Laika, que foi enviada para o espaço em 1957, a cachorrinha, nascida nos arredores de Moscou, chamava-se, na verdade, Skruvlávka, o nome Laika, foi uma forma de tornar a pronúncia mais fácil para quem desconhecia a língua russa.


Em toda sua dimensão de ternura, Laika representa a esperança de que um dia a humanidade vai recuperar sua inocência!
Minha versão da história da cachorra Laika, remonta o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, um evento magnífico que teve 12 edições, desde 2001. Recriei a história em homenagem ao meu pai, que sempre a narrava para mim, com muita energia e ação. Tempos depois, quando comecei a aprofundar a leitura sobre este episódio, descobri que muitos cachorros, durante minha infância, em Curitiba, tinham o nome de "Laika".
O envio da cachorra Laika, ao espaço, na nave Sputnik II, em 1957, mexeu com o imaginário de muitas gerações e remonta a época da guerra fria entre a extinta URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e o bloco capitalista, capitaneado pelos EUA. O que pouca gente sabia, na época é que Laika foi enviada ao espaço para morrer. A tecnologia que a levou para orbitar a terra não era suficiente para trazê-la de volta e isso gerou comoção no mundo inteiro. Dizem até que este fato, foi fundamental para que se criasse a Sociedade Protetora dos Animais.

Jiddu Saldanha
www.jiddusaldanha.com.br



terça-feira, 1 de novembro de 2016

ARTUR GOMES E ANDRE GARCIA - DOIS MOMENTOS PARA O POESIA DE CENA 2016

Isso mesmo, uma verdadeira máquina de falar poesia. Muitos acreditam ser uma reencarnação do próprio Evtutchenko, o poeta russo que falava poemas em estádios de futebol lotado. Quem já teve o prazer de ouvir este gigante da poesia brasileira, não tem ideia de sua força e fúria poética. Artur Gomes é, ao lado de Mano Melo, Lília Diniz, Dalmo Saraiva, Marisa Vieira e Elisa Lucinda, o maior nome da poesia falada no Brasil.
Já André García é, sem dúvida, um dos mais arejados poetas de Cabo Frio, com uma pegada forte na reflexão politica, sua obra está surgindo com grande força e irreverência. Se tem alguém que leva a sério o que faz, esse alguém é André. Suas publicações já circulam a muito tempo pelos espaços alternativos de Cabo Frio e Região dos Lagos, mas agora, depois que criou o selo CAMARADA GARCIA, passou a realizar sonhos de outros poetas, inclusive eu. Com seu belo fazer criativo, de publicações alternativas, sua oficina de Fanzine, é um verdadeiro despertar para a arte e o viver em si.
Cabo Frio, no POESIA DE CENA 2016, vai encontrar um pouco da sua essência, através de tantas possibilidades criativas e muita invenção, a partir do exercício da palavra poética, praia em que Artur Gomes e André García, já navegam a muito tempo, não sem se se "antenar" nos acontecimentos atuais dentro da arte do fazer, criar e escrever poesia. Enfim, fazer literatura!

Artur Gomes e André García, momento único para estar com os dois ao mesmo tempo.  Vale a pena fazer, ver e viver o que
eles tem para ensinar para todos nós.
A POESIA FALADA COM SUA FORÇA TOTAL

Nascido na Cacumanga, em Campos dos Goytacazes, Artur Gomes já fez de tudo na vida. Foi da cavalaria montada, chegando a tornar-se Dragão da Independência, isso mesmo, aqueles soldados que se vestem com uniforme imperial e guardam o palácio do planalto. Mas tem uma profissão que poucos conhecem hoje em dia: Artur foi Linotipista, isso mesmo, na época em que não existia máquina de impressão eletrônica, ele se fechava numa câmara para fabricar letras de chumbo que, posteriormente, seriam colocadas na máquina de impressão, para virar livro e anúncio de jornais.
Nos anos 60 Artur praticamente teve a revelação da poesia, e atravessou a década de 70 gritando seus poemas aos 4 ventos, por este Brasil a fora. Tive a honra de encontrá-lo inúmeras vezes pela estrada e cheguei a fazer alguns filmes sobre ele, do qual destaco o POESIA PROIBIDA, nome de seu recital que tive a honra de dirigir, por volta de 2012. Artur é um monstro sagrado, um poeta verdadeiro, com uma pegada forte e direta. Sua poesia traz uma palavra revolucionária e erótica. Seu jeito de eterno menino, esconde sua idade, Artur é o poeta que nunca envelhece. Sua fúria, sua criatividade, sua alma é a dos verdadeiros travadores medievais, cavaleiros quixotescos, lutando eternamente contra os moinhos de ventos da vida.
Em 2007, eu e este grande poeta nos trancamos para estudar a fundo o impacto das novas tecnologias na arte da poesia, o resultado foi o surgimento do polo Cinema Possível de audiovisual e a Fulinaima Vídeos, a partir daí, passamos a utilizar o audiovisual como plataforma de criação para diversos suportes de internet. Artur é uma usina viva de criação e sua arte é, hoje, reconhecida em todo o Brasil.

OFICINA DE POESIA FALADA

Com um método único de memorização e declamação em público, Artur é desses professores poetas que você aprende rindo e se divertindo muito. No final das contas, conviver com ele, ouvi-lo falar em público, e descobrindo a sua verve poética, é a forma mais simples e direta de mergulhar no misterioso mundo de falar poesia para grandes públicos. Foi assim que o conheci, nos anos 90, em alguns dos principais momentos da vida literária do País. Indo por bienais, eventos literários em calendários de cidades por todo o Brasil, lá estava ele, o POETA PROIBIDO que libertava a palavra presa na garganta. Vamos aprender com ARTUR GOMES!

ANDRÉ GARCÍA E O FANZINE EM CABO FRIO

André já circulou por diversos lugares da cidade, como poeta, é uma espécie de "andarilho urbano", desses que vai aos lugares sem compromisso. Chega a hora que quer e sai quando a gente menos espera, comportamento típico de poeta. Bom mesmo é ouvir seus poemas, quando ele sobe no palco, fala com o coração e mostra uma poesia ácida que não deixa pedra sobre pedra. André é um artista que resolveu levar sua arte a sério e vive vida de poeta, dividindo seu tempo entre a produção, o emprego e reinvenção de si mesmo.

Com um vasto conhecimento sobre o tema Fanzine, André mantém seus interlocutores totalmente focados no assunto!
Desde que o conheci, ele investe, sempre, na sua produção. Cria seus livros, e sai por aí, vendendo seu material. Reclama que ninguém lê, tremendo "sétium", já que, se tem escritor em Cabo Frio que tem leitores, esse cara é ele. Blogueiro da pesada, publica com disciplina e quem conheceu sua fase cineasta, sabe que seus filmes causavam sensações no Cine Mosquito, o Cine Clube mais antigo de Cabo Frio.  
Uma vez, a galera do OFICENA deu por falta do André e começou a especular porque ele não foi mais ao curso, respondi logo para que não ficasse dúvida. André é um poeta, ele veio aqui por comprometimento com sua poesia, veio e foi embora, a nós, só resta a gratidão, por saber que tivemos, circulando pelas entranhas escuras do teatro semi-abandonado, a figura daquele que será, talvez, um dos poucos poetas que se salvará, de fato, enquanto criador de uma obra robusta.
Sobre a oficina de fanzine, do André García, soube, pela primeira vez uma que ele deu na Casa Ancorada e utra que foi ministrada no espaço Aroeira, praticamente nos dois extremos da cidade. André, é um cara muito produtivo e suas publicações já lhe renderam omentos incríveis como, por exemplo, a Inserção de Henrique Selani, definitivamente, no mundo da poesia local, além de criar uma forte energia de atividade voltada para a construção do Fanzine, que, não para de se multiplicar em sua mesa de criação e exposição.



Jiddu Saldanha - Blogueiro.

Palestra e roda de bate papo no POESIA DE CENA 2016

Conheci Herbert Emanuel, em 1991, na primeira edição do Congresso Brasileiro de Poesia, em Nova Prata - RS, onde, convivemos com a nata da literatura alternativa brasileira. Encontro inesquecível com Alice Ruiz, Oscar Bertoldo, Leila Miccolis, Mário Pirata, Helio Leites, Paco Cac e tantos outros. De lá pra cá, "muita água passou por debaixo da ponte", e cultivamos uma amizade que completou 30 anos, em 2016. Herbert aceitou o convite para dar sua palestra no POESIA DE CENA 2016. E que será, também, assunto da mesa de bate papo com intelectuais locais de Cabo Frio, será um grande momento para nós.

Herbert Emanuel, poeta e Filósofo, ao lado de Jiddu Saldanha, sua companheira
Adriana Abreu, o jovem ator Danilo Tavares e a Atriz Karol Schittini, em Sta.
Tereza, Rio de Janeiro - 2016.

POESIA: PAIXÃO (TESÃO) DA LÍNGUA

Pra início desta conversa (ou desconversa) fiada, que se fia, se desfia, se ata e se desata, eu desejo que esta seja uma viagem de língua na linguagem  ou um banquete de palavras, suculentos pratos de palavras, (ADRIANA RECITA QUE BELA SOPA) para a nossa “saboração”. Saboração é uma palavra inventada, palavra-valise, pois traz dentro de si (pelo menos, tem essa pretensão) o saber, o sabor e sedução: saboração.

(RECITAR O POEMA SABORAÇÃO)

Lewis Carrol, matemático e poeta inglês, autor de “Alice no País das Maravilhas”, foi um grande inventor de palavras-valise: gritos+silvos= grilvos; grama+silvos= gramilvos (na tradução de Augusto de Campos do seu “Jabbrwocky”, Jaguardarte). James Joyce, leitor de Carrol, também: fumante+furioso= fumiroso. Entre nós, Souzândrade, poeta maranhense redescoberto pelos irmãos Campos, com suas palavras-montagem: “jubilogritantes”, “algaverdecomados”, “escamiventreprateados”. Leminsk, em sua poesia-prosa-caoscósmica chamada Catatau nos fornece outro exemplo: “calverdáver”, “contagotagiosas”. Há umas palavras-valise deliciosíssimas do Caetano Veloso:

(INTERLOCUTOR)
Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca
Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza:

Outras palavras

(HERBERT)
Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávora
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me, felicidadania:

(INTERLOCUTOR)
Outras palavras

            Na verdade, eu desejo que esta conversa seja uma grande brincadeira - brincadeira com a matéria-prima da poesia: as palavras, pois fazer poesia é, de certo modo, molecar com as palavras; portanto, brincar, “descobrir a infância em nós”.  

(INTERLOCUTOR RECITA O POEMA DE JOSÉ PAULO PAES)

            O meu objetivo aqui é estabelecer um di-álogo poético, que é ao mesmo tempo, no dizer do poeta mexicano Octávio Paz, um acordo e um acorde, pois pressupõe a cumplicidade de vocês, mas é também melos, no sentido que os gregos davam a esta palavra, que significava ao mesmo tempo canto e encantamento. Música, portanto, para ouvidos atentos. (ADRIANA RECITA FALSA BALADA TOSCANA).
           Música, melodia, canto, encantamento. O que é a poesia?

(INTERLOCUTOR RECITA O POEMA A PALAVRA EM PONTO DE POEMA)

     Eu diria que é o exercício de uma paixão especial: a paixão pela linguagem.
            O que é uma paixão? (ADRIANA RECITA ISMÁLIA) Comecemos pela etimologia. Os gregos tinham duas palavras “paixão”: uma que significava “sofrimento”, “fixação”, “obsessão”, era a palavra páthos. (não é comum dizer-se de uma pessoa apaixonada, que está sofrendo, sofrendo de amor? a paixão –pathos- tem dessas coisas: nos deixa meio paralisados, meio patéticos). Aí entra a outra palavra paixão:  é timos. Timós, para os gregos, significava “coragem”, “força”, “ânimo”, (pois timós também pode significar “fumaça”, “sopro”, “vento”, mesma raiz, portanto, da palavra anima, animus). Neste sentido, a paixão também é impulso para fazer algo, é ação, movimento. Pensar o movimento das coisas foi a paixão dos gregos. Voltando a pergunta: O que é paixão? Eu diria que é o interesse exacerbado, obsessivo, corajoso e desmedido por  algo: homem, mulher, planta, bicho, poema.
 A poesia é exatamente esse interesse exacerbado, obsedante, corajoso e desmedido pela linguagem. É páthos e timós ao mesmo tempo.
             Mas o que é a linguagem?
 (INTERLOCUTOR RECITA O POEMA DO MÁRIO)
Diz o filósofo alemão, Heidegger, que a linguagem é a “morada do ser”; é o lugar, o local, o manancial onde o “ser” se desvela, se revela, vem à tona, isto é, passa a existir. O homem, o mundo e todas as coisas só existem através da linguagem. Como entender o homem, o mundo e as coisas, sem chamá-los de “homem”, “mundo” e “coisas”?
(INTERLOCUTOR RECITA NIETZSCHE). Ou como diz Octávio Paz:

 “A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade. Não há pensamento sem linguagem, nem tampouco objeto do conhecimento: a primeira coisa que o homem faz diante de uma realidade desconhecida é nomeá-la, batizá-la”. E também erotizá-la.
(INTERLOCUTOR RECITA O POEMA DESDE DENTRO DA UMIDADE DA PALAVRA À UMIDADE DO TEU SEXO RECLAMA MINHA LÍNGUA.
Se a poesia é a paixão da linguagem, e a linguagem é a “morada do ser”, como disse Heidegger, é evidente que o poeta (poiétes) é o sujeito dessa paixão e é aquele que habita plenamente essa “morada”. (INTERLOCUTOR RECITA O POEMA A CASA)
            Na verdade, todos nós habitamos a linguagem, posto que a utilizamos cotidianamente para fins de comunicação. A maioria das vezes é um uso pragmático. Agora, habitar plenamente é outra história. Habitar plenamente é perfurar este manancial, que é a linguagem, fazendo jorrar a “palavra dizente”2, o pulso das palavras, como disse Maiakóvsky:

Sei o pulso das palavras, a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros    (herbert)
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro.
Às vezes as relegam inauditas, inéditas    (herbert)
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia.  (herbert)
Sei o pulso das palavras, parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios, alma, carcaça. (herbert)

Fazer jorrar a “palavra dizente” significa dizer o essencial. Dizer o essencial é justamente dizer o não-dito, o que escapa à rotina dos clichês, ou dizer o já dito de outra forma, (INTERLOCUTOR RECITA O POEMA COMPOSIÇÃO ESTRANHA) inventando para as palavras já gastas, corroídas e enferrujadas novos relacionamentos, nova sintaxe. (INTERLOCUTOR RECITA MANOEL DE BARROS)

Só o poeta é capaz disso, dessa “residência poética”. “Rico em méritos, é, no entanto, poeticamente que o homem habita esta terra”, afirmava o poeta alemão Hölderlin. Habitar a terra, ressignificando-a. Há aqui uma responsabilidade ético-estética com a linguagem. O bom poeta torna a língua mais rica; o mal poeta a empobrece. Poisa poesia é como a lavra do radium, um ano para cada grama – para extrair uma palavra, milhões de toneladas de matéria-prima”, já exigia Maiakóvsky. Poesia é linguagem elevada à enésima potência de significação. Neste aspecto, vale citar o poeta Manoel de Barros, que expressa num único verso esta função precípua do poeta e da poesia: MINHOCAS AREJAM A TERRA; POETAS, A LINGUAGEM.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A Invasão da Poesia.

Num momento de profunda crise econômica e política, Cabo Frio sofre a invasão da poesia. Poetas são assim, seres que aparecem nos momentos em que a sociedade os chama através de uma complexa rede telepática. Clube do Poeta, Degustando Arte, Sarau da Tribal, Flores Literárias, Varal do Beijo, Festival de Inverno Literário, TCCEXTA e o surgimento do selo Camarada García,  pavimentam uma nova ERA DA POESIA para Cabo Frio.

Cintra levando meu livro, figura onipresente em Cabo Frio.
Não só a poesia, mas também a prosa, eu diria, a literatura sendo revitalizada, com novos nomes surgindo no cenário da poesia da Região dos Lagos. Um desses nomes é, sem dúvida, André García, que resolveu "cair dentro", trazendo uma avalanche de novidades. Além de uma poesia aderente, profunda e contestadora, é, também, uma ação cotidiana que faz levantar a poeira do lado de cá. Honrando uma tradição que traz Paulo da Silveira como ícone e a figura errante de Miguel Lima, construindo um cenário que já vinha se fortalecendo, principalmente com a injeção de energia proposta pelo primeiro FESTIVAL DE INVERNO LITERÁRIO DE CABO FRIO, um evento magnífico, que fez diversos poetas "saírem da toca", enquanto novos chegavam.
Espalhando arte e estetica desde 2014, o "Varal do Beijo", de Nathally Amariá,
evidencia uma tendência de que a poesia circula sutilmente no coração da
juventude de Cabo Frio.
Ainda em 2016, o Sarau da Tribal, amalgamou várias fontes criativas, num evento inesperado, mas que aconteceu de forma incrível, no espaço Usina 4, com casa lotada, trazendo como voz principal, n aquele dia, a figura da jovem poeta Beatriz Ebecken que invadiu a praia com sua poesia ácida, sensual e provocadora. Neste mesmo dia, jovens como Jean Monteiro, Nathally Amariá, Celso Guimarães e Dandara Melo, fizeram a poesia explodir, numa avalanche de palavras que ajudaram a criar um ambiente fluido e provocativo. Completamente arrebatado pela fúria dos jovens que ali se manifestavam, nem José Facury resistiu, subiu no palco e destilou sua narração de histórias, deixando o público feliz e participativo.
Outro nome que se faz presente em diversos saraus é o professor de física do IFF - Cabo Frio, Henrique Selani, que, com uma poesia cheia de referências históricas, evoca uma fala contundente e, trazendo os deuses do olimpo, novamente, através de verdadeiras orações bacantes impregnadas da mais sofisticada linguagem literária. Henrique vem bebendo na fonte da mais fina literatura muncial, descobrindo o melhor de sua arte poética, através de reflexões profundas em vertentes que tem em Miguel Gullander, sua mais forte influência.
No bojo dessa nova geração, aparece Nathally Amariá, que, com seu VARAL DO BEIJO, vai, de forma sutil, costurando energias produtivas e criativas, dentro de um universo poético que começa a explodir com grande força, neste fatídico e desastroso ano de 2016, um ano que explode crises mas que marca o renascimento da poesia Cabofriense. Nathally é também poeta e já esteve num grande evento de poesia, em 2014, o "Congresso Brasileiro de Poesia", tendo participado, inclusive, da antologia POETA MOSTRA SUA CARA, com seus haicais, junto com Ravi Arrabal e Kéren-Hapuk. Seu blog BEIJO QUE VIROU ARTE, virou referência para pessoas de sua idade, mas já aponta para uma literatura que vem surgindo com certo capricho estético.
Jaqueline Brun e Andrea Rezende, com o sarau Flores Literárias, revelam novos nomes da poesia local e consolidam a presença daqueles que já fazem poesia a mais tempo, como o querido Rodrigo Poeta, que traz uma reflexão forte e um mergulho no desafio do próprio fazer, reconstruindo olhares e entranhando-se cada vez mais como um observador atento ao fluxo existencial de Cabo Frio e Arraial do Cabo.
Sem sombra de dúvida, a jovem Lorena Brites com seu livro Acervo de Palavras, abriu caminhos a ombros, para uma geração que não quer se conformar, cria seu discurso e reinventa-se através de um desafio permanente, dar sentido à vida e continuar na trilha de tornar a arte um caminho necessário para o processo educacional e vivencial da cidade. Também é bom rememorar o belíssimo festival de contos de Cabo Frio, organizado pela LITERARTE, da incrível Isabelle Valladares, em 2013, um acontecimento impactante para as letras de Cabo Frio.
A poesia Cabofriense também teve suas perdas. A figura do poeta  Paulo da Silveira, patrono do Clube do Poeta e mentor de nomes como Azul Cazu e Fabio de Freitas, era uma referência de resistência e permanência na linguagem e, agora, recentemente, nos despedimos do querido Carlos Alberto, da ARTPOP, que fazia forte militância pela literatura local, criando uma fonte inesgotável de relações entre o fazer literário e a conjunção de forças diferentes da busca do fazer artístico.
Uma mistura de gerações, em saraus das mais diversas naturezas inventivas, agora, parecem encontrar impacto e permanência em Cabo Frio, apontando para a possibilidade de uma nova era para o forte movimento que está surgindo na cidade.

(Jiddu Saldanha - Blogueiro)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

André García, um cronista de sua geração.

André García tornou-se um nome forte da poesia cabrofriense, quem o conhece sabe de sua irreverência e do seu "não ter papas na língua", dito isso, André é um criador rigoroso, faz poesia e escreve contos com tom devidamente profissional e vive o cotidiano da cidade como um cronista de sua geração.


André García clicado pelo poeta dos cliques, o fotógrafo Marcos Homem.
André já circulou por diversos lugares da cidade, como poeta, é uma espécie de "andarilho urbano", desses que vai aos lugares sem compromisso. Chega a hora que quer e sai quando a gente menos espera, comportamento típico de poeta. Bom mesmo é ouvir seus poemas, quando ele sobe no palco, fala com o coração e mostra uma poesia ácida que não deixa pedra sobre pedra. Camarada García, como costuma se chamar, é, na verdade, um artista que resolveu levar sua arte a sério e vive vida de poeta, dividindo seu tempo entre a produção, o emprego e reinvenção de si mesmo.

Na casa ancorada, André irá ensinar como fazer um Fanzine!
Desde que o conheci, ele investe, sempre, na sua produção. Cria seus livros, e sai por aí, vendendo seu material. Reclama que ninguém lê, tremando "sétium", já que, se tem escritor em Cabo Frio que tem leitores, esse cara é ele. Blogueiro da pesada, publica com disciplina e quem conheceu sua fase cineasta, sabe que seus filmes causavam sensações no Cine Mosquito, o Cine Clube mais antigo de Cabo Frio.  
Uma vez, a galera do OFICENA deram por falta do André e começaram a especular porque ele não foi mais ao curso, respondi logo para que não ficasse dúvida. André é um poeta, ele veio aqui por comprometimento com sua poesia, veio e foi embora, a nós, só resta a gratidão, por saber que tivemos, circulando pelas entranhas escuras do teatro semi-abandonado, a figura daquele que será, talvez, um dos poucos poetas que se salvará, de fato, enquanto criador de uma obra robusta.

A faze audiovisual de André García, deixou marcas no Cine Mosquito, onde fez um
tremendo sucesso! Quem não lembra da série "Boladão na Madruga"! Curta aqui o 
episódio 15.

"Boladão na Madruga" irreverente e sarcástico, André García marcou época com seus 
filmes alternativos. Espero que um dia ele volte a fazê-los, mas disso não podemos ter
qualquer certeza, André segue seu coração e faz o que sente que tem que fazer; a nós, 
cabe curtir um pouco de suas criações!

Recebo aqui, a notícia de que ele vai dar uma oficina de Fanzine. Com certeza, será um sucesso, mais um momento incrível proporcionado pelo pessoal da Casa Ancorada, um centro cultural independente que está buscando sua conexão com a galera alternativa da cidade, encontraram o cara certo, porque André é uma vertente de poesia genuína de Cabo Frio, aprender com ele significa mergulhar em algum tipo de essência e viver momentos que a gente não vai esquecer nunca.
Dale Camarada García.

Jiddu Saldanha - Blogueiro.